A Teoria da Renda Permanente procura escapar da determinação exclusiva pelo salário do mês. Segundo ela, as famílias consumiriam com base na renda esperada ao longo do tempo, mas não é simplesmente função do patrimônio.

Mesmo nessa formulação, não basta dizer: aumento da riqueza => elevação do consumo. A decisão depende de estabilidade do emprego, expectativas de renda futura, idade, liquidez dos ativos, acesso ao crédito, endividamento, proteção previdenciária e distribuição da riqueza.

No Brasil, onde a concentração patrimonial é elevada, a agregação de todas as famílias em um “agente representativo” oculta diferenças essenciais. O aposentado rentista, o assalariado endividado e o trabalhador informal não reagem da mesma forma à Selic.

Os canais mais fortes da Selic brasileira são outros. O próprio Banco Central apresenta diversos mecanismos de transmissão. O aumento da taxa real tende a encarecer o crédito e reduzir consumo e investimento, mas também opera por expectativas, câmbio e preços dos ativos.

No caso brasileiro, os canais mais relevantes da política monetária parecem ser os seguintes. Primeiro, elevação da Selic => crédito mais caro => queda do consumo financiado. Afeta especialmente: automóveis; bens duráveis; capital de giro; financiamento empresarial; crédito pessoal; novas concessões habitacionais, embora estas tenham particularidades institucionais.

No caso do investimento, elevação do custo de capital => projetos deixam de ser rentáveis => queda do investimento. Esse é um dos efeitos mais fortes: o empresário pode preferir aplicações financeiras líquidas e de baixo risco a imobilizar capital em uma expansão produtiva incerta.

No caso da renda disponível dos endividados, o serviço da dívida absorve parcela maior do salário e da receita empresarial.

No caso do câmbio, juros relativamente elevados podem atrair capitais, apreciar o real e baratear importações, embora essa relação seja instável e dependa do risco, da conjuntura internacional e das expectativas.

No caso do canal fiscal, a despesa pública com juros aumenta, podendo provocar pressão neoliberal para contenção de gastos primários do governo.

Quanto ao paradoxo monetário brasileiro, o resultado pode ser resumido assim:

A política é contracionista, mas não porque todos empobrecem. Ela contrai principalmente porque penaliza devedores, desestimula investimentos, dificulta novas compras financiadas, transfere renda para agentes com baixa propensão a consumir e pode induzir contenção fiscal. Ao mesmo tempo, ela preserva e amplia a renda financeira dos credores pós-fixados.

Entretanto, a “jabuticaba” não é apenas o juro pós-fixado. A singularidade brasileira é a combinação de taxa básica elevada, grande volume de ativos de curtíssimo prazo ou pós-fixados, liquidez diária, proteção contra a elevação da taxa, dívida pública utilizada como ativo quase monetário, indexação histórica e profunda desigualdade patrimonial.

O rentista brasileiro não precisa escolher claramente entre liquidez, segurança ou rendimento elevado. Ele pode obter os três em certas aplicações.

Em economias financeiras mais usuais, rendimento elevado exige aceitar maior prazo, risco, volatilidade e iliquidez. Essa combinação brasileira enfraquece a disciplina patrimonial supostamente produzida pela alta dos juros.

A elevação da Selic, enfim, não provoca um amplo empobrecimento dos detentores de riqueza financeira brasileira, porque uma parcela relevante de seus ativos é pós-fixada e passa a render mais. Existe marcação a mercado, mas o Tesouro Selic e instrumentos semelhantes apresentam baixa sensibilidade às variações da taxa básica.

Assim, o mecanismo Selic↑⇒preços dos ativos↓⇒riqueza↓⇒consumo↓ é relativamente fraco e incompleto no Brasil. A contração do consumo ocorre sobretudo por: crédito mais caro + serviço da dívida maior +desaceleração do emprego e da renda + transferência de renda para poupadores.

Portanto, para compreender a economia brasileira, é melhor abandonar “o consumidor representativo” da abordagem neoclássica e distinguir trabalhadores, devedores, credores, rentistas, empresas e governo como faz a abordagem da complexidade.

O consumo agregado depende predominantemente do fluxo de renda disponível e de sua distribuição. O estoque de riqueza exerce influência, mas essa influência é secundária, desigual e condicionada pela liquidez e pela composição dos ativos. No Brasil do juro pós-fixado, a alta da Selic empobrece relativamente quem deve e enriquece quem possui riqueza financeira, em vez de reduzir uniformemente a riqueza da sociedade.