O músico Tom Zé, que completou 90 anos, expressou sua surpresa com o resultado do primeiro turno da eleição, aguardando os próximos desdobramentos políticos. Residindo em Perdizes, zona oeste de São Paulo, há mais de 50 anos, o artista baiano comentou sobre a proximidade de figuras políticas com ideologias ligadas à ditadura.
A esposa do músico, Neusa Martins, com quem é casado desde 1970, recordou que ele foi preso duas vezes durante o regime militar. Uma das prisões ocorreu após seu apartamento ser revistado, e a polícia encontrou uma ponta de cigarro de maconha. Tom Zé afirmou ter experimentado a erva, mas nunca gostou de fumá-la.
No início da década de 1960, Tom Zé trabalhou como diretor de música do Centro Popular de Cultura (CPC) em Salvador, que tinha financiamento do Partido Comunista. Apesar disso, ele nunca se considerou comunista, defendendo a liberdade de expressão em sua obra. A política, para o músico, reflete-se na sua forma de observar a sociedade.
Em suas obras, Tom Zé abordou a urbanização e o cotidiano das cidades. Discos como “Grande Liquidação”, de 1968, e “Todos os Olhos”, de 1973, satirizam o consumismo e a poluição. Ele também utilizou o antropomorfismo, dando características humanas a ruas e edifícios, influenciado por Adoniran Barbosa.
O período do tropicalismo, do qual Tom Zé participou ativamente, trouxe reconhecimento, mas também um isolamento após o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Ele viveu um período de pouco destaque no Brasil, sendo “redescoberto” internacionalmente por David Byrne nos anos 1980. O músico considera esse ostracismo superado e atribui o interesse estrangeiro à "música diferente" que faz.
Nos anos 1970, Tom Zé desenvolveu instrumentos musicais inusitados, como o “enceroscópio”, feito de uma enceradeira, e o “hertzé”, um "sampleador" pré-digital. Essas invenções permitiram a incorporação de ruídos urbanos e sons cotidianos em sua música, distanciando-o do grande público, mas mantendo a essência da música popular brasileira.
Discussões sobre sua classificação como tropicalista são, para ele, irrelevantes. Tom Zé ressalta que algumas premissas do movimento já estavam presentes em sua obra. Oriundo de Irará, Bahia, uma cidade sem luz elétrica em sua infância, ele descreve-se como um "dodecafonista sertanejo", misturando as influências da cultura sertaneja com as inovações musicais.
Próximos eventos e celebrações dos 90 anos
As celebrações dos 90 anos de Tom Zé incluem uma exposição na Caixa Cultural São Paulo, o lançamento de uma nova biografia ("Um Vira-Lata na Via Láctea", de Christopher Dunn), shows no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no Sesc Pompeia, em São Paulo, e no Festival Saravá, em Florianópolis. Um disco da série "Relicário", do Sesc, e um álbum de inéditas, com a faixa "Futuro Fruto", também estão previstos.







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