A indústria brasileira de carne bovina enfrenta um cenário desafiador com a implementação da política de cotas pela China, que visa proteger seus frigoríficos locais. Essa medida, anunciada no final de 2026 e com validade até 2028, estabelece tetos anuais de importação com alíquota básica de imposto por país. O volume que excede essa cota é sobretaxado em 55%, impactando diretamente a rentabilidade das exportações.
Em 29 de setembro, a cota anual de 1,1 milhão de toneladas com alíquota convencional para o Brasil foi atingida. De acordo com Diogo Oliveira, gerente de exportações da Astra Foods, a antecipação do fim da cota já era prevista, levando a empresa a interromper as exportações para a China no final de junho, visando evitar as tarifas adicionais.
Impacto no setor e busca por alternativas
A China representa 48% das exportações brasileiras de carne bovina. A retração desse mercado resultou em uma diminuição de 35% no volume embarcado em setembro de 2027, em comparação com o ano anterior, e uma queda de 94% na procura chinesa. Esse cenário obrigou os frigoríficos a ajustarem suas operações, com alguns recorrendo a férias coletivas e redução de abates. A Astra Foods, por exemplo, diminuiu seu abate em 20% e o quadro de funcionários em nível semelhante desde agosto.
Paralelamente, houve um redirecionamento de parte da produção para outros mercados, como os Estados Unidos. Em setembro, o país norte-americano absorveu quase um quarto do volume exportado, atingindo mais de 44 mil toneladas de carne bovina in natura e um crescimento de 389% no volume total, incluindo carne processada. A União Europeia também suspendeu as importações de carne brasileira, alegando controle insuficiente e falta de informações sobre o uso de antimicrobianos.
Desafios econômicos e estratégias futuras
O professor Maurício Vaz Lobo Bittencourt, coordenador do Neide da Universidade Federal do Paraná, estima que cerca de 400 mil toneladas de carne bovina brasileira ficaram sem mercado devido à política chinesa. Ele aponta que, apesar da alta do preço da arroba, a falta de força comercial para escoar a produção sobrecarrega o mercado doméstico.
Juliana Franco Afonso, professora de Economia da UniCesumar, enfatiza que o regime de cotas deve ser visto como uma medida estrutural. Ela sugere que a estratégia do Brasil deve ser a de diversificar mercados, buscando atuar tanto na China quanto em outras regiões. O especialista em commodities José Vitor Hidalgo reforça a importância da gestão de risco e do planejamento estratégico, recomendando que as empresas tenham múltiplos planos de contingência para se adaptar rapidamente a mudanças no cenário global.







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